segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo VII
Milagre:
Durante meses viajou pelo interior do estado como um nômade. Seus números foram sofisticando-se e a experiência da dupla evoluía a cada atuação. Agora João cuidava de diversos números, suas responsabilidades eram de adulto e muitos animais dependiam dele.
Certo dia, todos foram informados que o próximo destino seria novamente a capital. Sempre junto a José, foi a tenda do senhor Carlos Salgado na expectativa de conseguir um ingresso para presentear Don´Ana.
Sem poder evitar ao aproximar-se da tenda ouviu o Senhor Salgado que em momentos de dificuldade costumava pensar em voz alta:
- Já não tenho mais o mesmo fôlego e energia de tempos atrás, quando eu era jovem! Também não tenho filhos para dividir as responsabilidades e para dar continuidade ao meu trabalho. O que será do meu circo amanhã?
- Desculpe senhor vindo para sua tenda para lhe fazer um pedido quando escutei o que disse. Com todo respeito, sei que é muito difícil ser sozinho, senti na pele o que é viver sem pai e mãe. Imagino como o senhor se sente. Por isso que vim pedir um ingresso para presentear uma senhora que me deu novamente uma família ao me acolher e me presentear com Zézim.
O senhor de início se sentiu desconfortável com a revelação que fez sem querer, a seguir identificou-se com as palavras de João e respondeu:
- Se ela é a responsável por você e José se conhecerem, presenteie-a com um convite na primeira fileira, afinal ela é responsável pelo aumento do nosso sucesso, salvou minha vida e por tudo de bom que aconteceu desde que nos conhecemos filho.
Agora com um ingresso, dirigiu-se a pousada. José sabia que voltava para seu lugar de origem e estava mais radiante que o humano com tudo. Finalmente chegaram e como se o tempo não passasse por ali, estava Don´Ana como sempre em frente a sua morada:
- Oba! Olha quem chegou! Joãozinho e o filho de Quiquinha, José! Vejo que vocês estão ótimos. Não sabe a alegria que me trazem! – disse muito animada.
- Sim, estamos ótimos. Temos tantas novidades para contar. Estamos empregados no conhecido Circo Itinerante Carlos Salgado! Somos a atração principal e agora temos fartura. Vim lhe presentear com um convite para o nosso espetáculo. – entusiasmou-se.
Com seu faro Quica notou quem chegou e apressou-se em sair de casa. Mãe e filho se encontravam pela primeira vez desde a partida. Brincaram e se lamberam, balançando seus compridos rabos típicos dos vira-latas e sempre ao redor dos dois que continuavam a agradável prosa:
- Vamos ficar um tempo na cidade Don´Ana e contarei todas as aventuras que nós dois vivemos até conquistar tudo que temos. Mas não deixe de ir ao espetáculo, sua presença será muito importante para mim! Você mudou minha vida ao me presentear com meu irmão José da Silva e quero que desfrute o resultado de sua bondade. Vá bem arrumada porque nosso circo é muito bem freqüentado. – explicou para a generosa senhora.
- Claro, será um acontecimento importante e único para mim também!
Não tiveram muito tempo para conversar, agora João era uma pessoa muito ocupada, tinha que voltar ao circo. Perguntou sobre os irmãos de Zé, todos haviam sido doados. Depois se despediu de Don´Ana dizendo:
- Até mais tarde, não se atrase, todos os números de Carlos Salgado são imperdíveis!
De volta foi diretamente agradecer o Senhor Salgado, perguntar se estava melhor e se havia algo que pudesse fazer para ajudá-lo.
- Não filho, você já me ajuda bastante. Recuperamos nosso prestígio e fama, e estamos pagando nossas contas graças ao seu dom com os animais. Antes de você tomar frente nos espetáculos, estávamos com muitas dívidas e hoje mesmo lhe pagando mais que dobro do que àquele domador picareta, estamos saudando todas as dividas e a cada dia o público aumenta. – Sincero e conformado respondeu.
- Falo sobre a solidão que não pude deixar de escutar quando disse pela manhã. No dia de descanso que teremos posso ajudar em seus afazeres para que você possa se divertir. Quem sabe conhecer alguém especial aqui na capital. – Insistentemente tentando ajudar a mudar as coisas, para a segunda pessoa que lhe deu chances de mudar sua vida.
- De que adiantaria? Quem aceitaria viver viajando com um velho como eu? É assim a vida na estrada, acostume-se com isso também. – como sempre balançando o bem cuidado bigode.
Anoitecia e o espetáculo estava para começar. Dos bastidores na cadeira reservada para Don´Ana João avistou outra mulher. Apesar de ter idade para ser sua mãe, muito bonita, bem vestida e atraente:
- Será que Don´Ana ficou com medo de vir e deu seu convite a outra pessoa? – se indagou, acreditando ter deixado Don´Ana insegura quando falou sobre trajes e da grandiosidade do circo.
Carlos Salgado começou a apresentar o primeiro número. Quando avistou aquela dama e se desconcentrou. Durante todo o evento voltava a olhar aquela mulher sentada à frente, que lhe atraiu por demais.
Enfim João entrou no palco. Com as atrações iniciais encerradas, os melhores números começavam a se realizar. Eram diversos, sempre intercalados pela presença do menino e algum animal selvagem. Até que finalmente era chegada a grande hora. A última apresentação! A famosa dupla: João e José da Silva.
Ao término da dispensável apresentação oral feita pelo senhor Carlos Salgado, os dois surgiram no palco. Foi quando algo impossível aconteceu. Era Quica, que de alguma maneira, quiçá por debaixo das extensas lonas conseguiu entrar na tenda e como um foguete correu e pulou no colo daquela dama, que agora João identificava claramente. Era Don´Ana que estava o tempo todo naquela cadeira irreconhecível de tão bela e elegante . “Quica deve tê-la seguido à distância para não ser percebida” imaginou a estrela mirim.
Ao ver sua mãe pela segunda vez naquele dia, o cão José se estabanou. Saiu do lado de seu amigo ao encontro de Quica. O menino não conseguiu evitar que o companheiro cruzasse o palco em direção a cadela.
Sem contornar a cama elástica, o cachorro eufórico com o novo encontro, tentou cruzá-la. Ao pular sobre o aparelho foi lançado para alto em um vôo que por sorte terminou em uma das duas plataformas mais altas usadas nas acrobacias mais difíceis e perigosas e sem sofrer nenhum arranhão.
Carlos Salgado que observava constantemente Don´Ana ao ver Quica pular em seu colo e em seguida ir ligeira em direção a cama elástica, concluiu de quem se tratava a admirável e madura mulher.
Em segundos, Quiquinha na tentativa de salvar seu filho se lançou as alturas se jogando na cama de elástico. Sem domínio de seu trajeto além de lançar uma grande e leve bola usada nos espetáculos ao alto e em direção de seu já crescido filhote, parecia flutuar e pousando suavemente na plataforma oposta a que se encontrava José a cerca de cinco metros do chão.
A bola foi recebida precisamente por Zézim com seu “nariz”. João intuitivamente falou no microfone a palavra senta, na tentativa de evitar o pior, a queda dos dois cachorros. O Senhor Salgado percebendo que Zé equilibrava a bola em seu fuço, ordenou que o menino manda-se o cão jogar a bola.
- Vamos jogar bola! – acatou a atração da noite.
Magicamente José com a ponta de seu focinho e aproveitando a impulsão que aquela bola elástica tinha, fez um passe perfeito para sua mãe, que superou o que até mesmo Don´Ana visivelmente tensa, não podia crer. Devolveu ao filho José a bola da mesma maneira que a recebeu.
Por alguns minutos continuaram a brincar como se estivessem no quintal de Don´Ana e ignorando a distancia do chão em que se encontravam. Todos os espectadores e mesmo a equipe do circo ficaram mudos, atônitos, diante um espetáculo extremamente insólito.
Ao notar dois acrobatas suspensos por cordas aproximando-se dos cães para conduzir ambos ao chão. O garoto com seu microfone determinou aos dois caninos:
- Muito bem! Agora sentados!
Obedientes, não reagiram, foram levados no colo pela dupla de acrobatas ao chão. Encerrando o acontecimento ao lado de José que até então dissimulava sua agonia com um sorriso dirigido ao público. Quando viu mãe e filho foram colocados no solo, sentiu um misto de alívio e encantamento.
Carlos ficou emocionado com o que viu. Já tinha passado um dia emotivo e reflexivo. Além disso, desde o início dos espetáculos estava enfeitiçado pela mulher que havia presenteado João, com o habilidoso e genial animal, que salvou sua vida. Ouvindo então um clamor ainda inédito em toda sua carreira. Ficou confuso e em uma espécie de transe deixou seu púlpito em direção ao trio que estava no centro do palco, coisa que nunca havia feito.
De forma automática, Don´Ana ao ver os caninos em terra e em segurança estava certa de que ocorrera um milagre, aproximou-se juntamente ao Senhor Salgado, estavam ao lado dos três artistas dizendo simultaneamente:
- Filho! – e apenas ela continuou – assistimos a um milagre! – calando o Senhor Salgado. Que também tinha algo a dizer.
Sem que desse tempo de qualquer resposta, todos os pagantes, artistas e funcionários do circo se dirigiram ao palco. Todos queriam tocar e abraçar os cães e o garoto, como nas decisões de copas do mundo. No centro, apertados pela multidão estavam os três artistas e o casal.
Muito tarde foram encerradas as atividades no circo, devido à imprevisível e inédita confusão. Já era muito tarde para Don´Ana voltar para sua pousada. João a convenceu a passar a noite em sua privilegiada tenda, que só era inferior a de Carlos Salgado. Carlos parecia apaixonado, ofereceu um jantar especial ao menino, à atraente mulher e aos dois cães voadores.
Tanta emoção levou embora o sono de todos. Na tenda conversaram por horas à mesa, todo o tempo, acompanhados por Quica e José.
Os cães e a criança desde o início compreendiam o que acontecia. Já o casal, pertencia a uma linda família mesmo sem se dar conta disso.

FIM

STSA

sábado, 13 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo VI
A estréia:
O dia passou rápido para a dupla que ensaiou incontáveis vezes. Agora faltava pouco para as dez horas da noite. O garoto só tinha um receio, de seu amigo reagir de forma inesperada diante às luzes, ao barulho e ao grande público. Mas acreditava no potencial de Zézim e isso diminuía ligeiramente o calafrio que sentia no exato momento que o Sr. Salgado anunciou:
- Respeitável público, em instantes a prova de que o cachorro é mais que o melhor amigo do homem! Esta atração é diferente de tudo que já viram. Não se trata de um cão adestrado, mas de um menino e seu companheiro que compreende tudo o que seu dono diz! E mais, ele também fala com o dono que o entende por completo! Com vocês João e seu melhor amigo Zézim!
Então luzes miraram a dupla que nada podia ver enquanto conduzidos ao palco. O cão parecia notar o nervosismo de seu [dono] e não saiu do seu lado para protegê-lo do que pudesse acontecer. Quando os holofotes se apagaram ambos puderam ver a mesa montada e as arquibancadas cheias de espectadores por todos os lados.
Foi então que o menino pegou o microfone, engoliu seco e cumprimentou o público:
- Boa noite a todos! – olhou seu amigo e disse – Zézim, por favor, que horas são?
E como combinado, sem sua maquiagem, estava na platéia o palhaço, com o mesmo relógio dos ensaios, na primeira fileira e misturado ao público.
Transmitindo sua tranqüilidade ao garoto ele dirigiu-se ao palhaço acompanhado por um microfone sustentado por um pedestal e um cabo, amplificando seus dez latidos exatamente às dez horas da noite.
E o menino deu a mesma sequencia ensaiada dizendo:
- Já? Dez horas! Passou a hora do jantar!
Quando todos se espantaram em um único coro:
- Ó!!! – como se o cachorro soubesse realmente ver um relógio.
Joãozinho continuou seu número até o fim, quando ambos agradeceram o público. Surpresos e perplexos com a sintonia entre os dois e o comportamento do cão, percebido por todos como um comportamento humano por parte do animal. Aplaudiram de pé e ovacionaram os dois. Aos poucos as palmas foram cessando prevalecendo o silêncio absoluto. Tudo tinha ocorrido como o planejado, até que:
- Se este cão não é adestrado mesmo e entende tudo o que você fala, diga para ele vir pegar essa laranja que tenho em minhas mãos!!! – gritou em tom de desafio o conhecido adestrador de animais do alto da arquibancada.
- Tudo bem! - disse o menino ao invejoso colega de trabalho, dirigiu-se à Zézim e indagou ao microfone – Zé, eu ainda estou com fome. - o cachorro o olhou atentamente, quando ele falou por fim com ênfase na palavra laranja – queria uma laranja, busca pra mim?
Mal terminou de falar “busca pra mim” e o cachorro com seu faro se dirigiu de forma ágil ao adestrador que os desafiaram. Pegou delicadamente com a boca o fruto e deu educadamente ao menino que permaneceu no centro do palco e agradeceu seu canino companheiro com um afago, enquanto erguia com a outra mão o fruto.
Novamente todos se levantaram. As palmas, assovios e gritos não paravam mais. Mesmo depois de agradecerem novamente e se retirarem do palco. Nem mesmo o Sr. Salgado disfarçou sua empolgação
Neste momento o antigo adestrador de animais estava certo que este seria seu último dia no circo.
João da Silva pela primeira vez sentiu-se realmente feliz desde que banido de sua família por todo o acampamento cigano. João estava animado, não com o dinheiro que ganharia a partir daquele momento. Sua felicidade vinha do fato de que sua vida seria na estrada como ele sempre sonhou e ainda melhor em um ambiente repleto de arte e cuidando de animais que nunca imaginou existir. Assim João voltou a sorrir e José muito sensível, compreendia sua participação nisso.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo V
O aprendizado:
Já passado o susto e na paz que a distância dos trabalhos proporcionava mostrou o relógio e disse ao cão:
- Olhe quantas horas Zézim. - e repetiu uma espécie de latido dez vezes instruindo o parceiro.
Depois de repetir esse procedimento algumas vezes colocou o relógio no pulso do palhaço, que estava a uns dez metros de distancia assistindo tudo, o mesmo que viera conversando durante a viagem com João e repetiu ao atento animal:
- Olhe quantas horas Zézim!
O cachorro se colocou ao lado do pulso do palhaço, sentou-se ao lado do relógio e latiu dez vezes:
- “Au! Au! Au! Au! Au! Au! Au! Au! Au! Au!
E em tom de agradecimento disse o menino:
- Já? Dez horas! Passou a hora do jantar. – e continuou com duas palavras que já eram familiares ao cachorro - Vamos comer.
Vagarosamente o cachorro sentou-se a mesa que estava arrumada com uma toalha, uma panela, dois pratos, talheres e duas cadeiras. Calmo, José olhou para a panela; o garoto pegou com seu garfo dois pedaços de carne seca que usava para agradar Zézim e colocou um em seu prato e um no prato em frente à cadeira onde Zézim estava acomodado.
Os dois devagar comeram e terminaram juntos. Então João acalmou-se um pouco. Além de ansioso ele estava nervoso, não tinha certeza se Zé faria como sua mãe. O amigo era muito novo quando partiram e nunca havia comido a mesa com Dona´Ana como Quiquinha. Perguntou novamente algo conhecido ao companheiro:
- Quer mais?
Zé soltou como de costume ao ouvir esta frase mais um latido, desta vez semelhante à afirmativa palavra sim.
- Espera que já sirvo você. – falou lembrando-se de Dona´Ana e Quica – e fez da mesma maneira que a senhora que o acolheu.
Zé apenas comeu quando João começou a comer e novamente acabaram no mesmo instante. Joãozinho estava perplexo, porém não iria parar para não distrair o animal antes da conclusão do número, prosseguindo afirmou:
-Já é tarde, vamos dormir.
João normalmente por hábito esticava um pano no chão e em seguida o cão deitava, fez da mesma maneira, só que desta vez arrumou as duas camas como se duas pessoas fossem dormir e ao terminar disse:
- Pronto, vamos dormir. - Quando o menino deitou, o cachorro ficou indeciso, não sabia se deitava junto de João ou na outra cama que havia sido preparada.
Zé tomou a decisão certa e deitou-se na sua própria cama fingindo dormir por quase um minuto enquanto seu parceiro humano fazia o mesmo.
- Muito bom! Muito bom! – repetiu o palhaço batendo palmas, quando para finalizar seu espetáculo o menino teve a idéia de levantar olhar para o palhaço e se curvar. O cachorro seguiu o [dono] que em voz baixa deu mais um [comando] ao amigo:
- Deita.
E assim como em um ato de agradecimento os dois finalizaram o primeiro ensaio e o primeiro número circense de suas vidas. Que seu colega palhaço achou incrível e elogiou muito.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo IV
A Fera:
Alguns dias se passaram e ele havia se enturmado com o pessoal do circo. Estavam viajando há muito tempo e sabiam que o destino estava próximo. Em meio à conversa um dos palhaços, muito animado, disse:
- O Senhor Salgado falou que posso acrescentar algo em meu show, nestas cidades menores temos mais espaço para por em prática nossas próprias idéias.
- Verdade? Que legal, vai ficar ainda melhor sua aparição! Tenho certeza disso! – respondeu o garoto sem imaginar o que estava para acontecer.
O pessoal da divulgação já estava esperando Carlos Salgado e os artistas, em um terreno amplo com o chão de terra batida. Finalmente haviam chegado, começaram a montar as tendas e tudo que era necessário. Primeiro tiraram as lonas, as desdobraram e as armaram. A seguir as estruturas do palco e arquibancada começavam a ser montadas.
De repente um grito de socorro interrompeu os trabalhos! Rugidos eram normais, mas seguidos por um pedido de socorro era algo incomum para o grupo.
Todos deixaram seus afazeres e se dirigiram a gaiola do leão que estava fora de controle, quem sabe pelos maus tratos ou pela viagem e confinamento.
A fera batia agressivamente suas garras repetidamente na porta de grades.
- O cadeado não vai agüentar!!! Tragam correntes e tragam carne rápido!!! – Desesperava-se o domador, o mesmo que adestrava os três cães.
O primeiro a chegar com as correntes foi o próprio Sr. Carlos Salgado que perguntava:
- Onde está o tranqüilizante! Rápido, tragam a munição - Enquanto o homem bala destemido, porém receoso, rapidamente rodeava com uma corrente bem longa varias vezes a jaula tentando de alguma forma ajudar.
- Onde ficam guardados os cartuchos? - perguntou um acrobata.
Os cachorros do adestrador estavam presos por coleiras no pé de um banco e latiam, irritando mais o leão que aumentava a violência de seus golpes, apavorando cada vez mais todos os presentes.
José observava sentado, sem nenhuma reação. João voltou com a carne enquanto um acrobata colocou sonífero nela.
- Vamos jogue lá dentro! – apressou o palhaço.
O acrobata jogou em vão, o leão não deu atenção ao objeto e num golpe estourou o cadeado mesmo com as correntes presas ao redor que também não suportaram tamanho tranco.
Com o impacto da porta arremessada o domador que tentava afastar o leão da porta com uma vara foi lançado longe e o animal pulou em cima das três cadelas que num piscar de olhos ganiam em meio ao sangue.
Zé então, veloz dirigiu-se por trás do animal que estava estraçalhando os cães. O dono do circo estava logo ao lado em pânico e paralisado.
João tentou impedir gritando pelo nome de seu único amigo, mas o cachorro abocanhou o tornozelo da fera e recuou em um instante. O leão voltou-se para Zézim e preparou seu ataque mortal. Sem sucesso, não podia mais atacá-lo, seu tornozelo estava comprometido e mancando o animal teve dificuldade para se mover.
O homem bala então chegou com o tranquilizante e agora munido Carlos Salgado deu dois tiros de espingarda em Leo que adormeceu.
O Sr. Carlos não acreditava estar vivo. Ainda mais salvo pelo cão de um jovem ajudante. João abraçou seu melhor amigo que foi muito elogiado e enaltecido por todos, principalmente pelo dono do circo que sentia ter nascido novamente:
- Seu cão é muito valente e muito inteligente rapaz! Se todos não estivessem presentes jamais acreditariam que um cachorro venceu Leo o leão! – exclamou.
- Por isso não conto o que ele é capaz de fazer senhor, não acreditariam em mim mesmo. – respondeu Joãozinho.
Foi quando o Senhor Salgado começou a voltar ao seu estado normal. Friamente verificou que teria que sacrificar Leo, que estava irreversivelmente machucado e que não tinha mais cachorros para o espetáculo daquela noite.
Para solucionar um dos problemas e agradecer o menino e o cão, o Senhor Carlos disse:
- Quero ver hoje você e seu cão agradarem todos os pagantes desta noite!
- Nós? Mas nós precisamos nos preparar! – disse o garoto.
- Mas você não me disse que seu cão era adestrado e que já tinha experiência? – interferiu o adestrador de cães cabisbaixo e ao mesmo tempo com muita raiva em meio aos seus três cachorros mortos.
- Não, ele não é adestrado, ele entende as coisas que digo, é muito diferente! – explicou o menino.
- Melhor, se ele entende não dará nada errado! Tomara que as onças façam o publico não darem falta do leão que está em todos os cartazes espalhados pela cidade. – alertou a si mesmo o empreendedor em voz alta que em seguida dirigiu-se novamente ao menino. – Você ainda tem algumas horas para preparar o espetáculo. Os três cães estariam no palco às vinte e duas horas em ponto, esse será o seu horário. – falou seriamente com o menino pedindo para que ele se afastasse para começar seus ensaios, enquanto os outros cuidariam da montagem de tudo.
O menino então pediu emprestado um lenço, um relógio, uma mesa, duas cadeiras, uma panela, dois pratos, um garfo e uma faca, duas camas e roupa de cama para o Senhor Salgado que, sem tempo para curiosidades, atendeu prontamente João.
Ainda agitado o garoto distanciou-se e começou seu diálogo com Zézim.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo III
Sem destino:
Até que Quica parasse de amamentar ele decidiu ficar na pousada e passava o dia inteiro ensinando de tudo que podia para Zé, que agora algumas vezes ele chamava de Zézim. Mais que truques, ensinava coisas que acreditava ser úteis para eles, como farejar caça no mato, enterrar, desenterrar objetos e devolver a ele muitas coisas que imaginava úteis.
Quica era uma boa mãe, ensinava a Zézim de tudo também. O cachorro sempre surpreendia o menino com seu comportamento superando tudo aquilo que lhe fora ensinado.
Mas passado mais ou menos um mês o leite de Quica secou e já com uma única peça de ouro decidiu deixar a pensão e procurar um lugar nas matas onde pudesse acampar como era hábito de seu povo e passar um tempo. Pensou que não seria difícil viver da caça e da coleta com seu cão mais que inteligente.
Já tinha adiantado quase todo pagamento, arrumou em uma pequena mala que ganhou de Dona´Ana as poucas mudas de roupa que tinha e dirigiu-se a frente da pousada onde a senhora passava os finais de tarde.
- Eu e o Zé estamos indo Dona´Ana, preciso procurar um lugar onde eu possa ganhar a vida. Eu não teria como pagar para ficar para sempre aqui, gostei muito da senhora e desse lar. – despediu-se pagando a pequena quantia que devia.
- Tudo bem filho, – acostumada às despedidas de seus hospedes – mas vê se volte a me visitar, gostei muito de sua companhia, animou bastante minha casa e sempre será bem vindo por aqui.
Ele e seu novo amigo partiram sem rumo, mas o garoto sabia que Zé o ajudaria e que os dois não passariam fome. Na estrada, caminharam muito, o menino a falar e o animal de ouvidos em pé. As florestas que imaginava encontrar não existiam. Via apenas propriedades agrícolas onde era certo que não poderiam acampar.
Ele levou mantimentos para poucos dias de caminhada. Depois de passados quatro dias caminhando percebeu que seu plano dificilmente daria certo. Mas sua infância entre os ciganos ou talvez o otimismo de um menino sonhador tenha o feito prosseguir, mesmo sabendo que se continuasse não teria água e comida para voltar à segurança do lugar de partida.
Foram mais três dias andando ao lado de José, quando avistou uma enorme propaganda à beira da estrada “Circo Itinerante de Carlos Salgado”, informando estar a dois quilometros de distância daquele ponto.
Animou-se e se despreocupou. A comida não daria para nem mais um dia de caminhada e em um circo talvez o deixassem acampar e possivelmente em troca de comida conseguiria algum serviço como ajudante.
Enfim estava diante do circo e suas sete tendas. A maior delas lhe encantou (lembrou seu acampamento natal e sua grandiosidade encantava-o por sua imponência), depois observou um senhor organizando com a ajuda de outras pessoas, treilers e objetos circenses, enquanto outras pessoas exercitavam seus números. Ao perceber que aquele senhor comandava os trabalhos aproximou-se, coçou a cabeça e timidamente disse:
- Por favor, aqui que estão precisando de um ajudante? Sou muito trabalhador e me contento com muito pouco.
- Que bom que você chegou filho – animou-se o velho com o sorriso escondido por seu grande bigode. - Já faz bastante tempo que eu anunciei, você teve sorte, hoje é nosso último espetáculo na capital, amanhã estaremos partindo para outra cidade.
- Eu me contento em aprender, que tratem bem meu companheiro Zézim e com comida para me dar força para trabalhar. – esforçou-se o menino para ser aceito. Em seguida apresentando-se como João, nome que adotou ao conhecer Zézim.
- Ótimo, era de alguém como você que estamos precisando, quero um ajudante para montar o palco e algumas outras funções, entre e diga que você é o novo ajudante que lá dentro uma moça com barbas irá explicar seu serviço e nossas regras rapaz.
-Sim senhor! – e imediatamente adentrou na tenda principal.
Ao entrar o que primeiro chamou sua atenção foram os elefantes, as onças o leão e outros animais que nunca tinha visto, mas em um segundo momento os cachorros, vestidos com roupas e sendo treinados por um profissional fez com que seus olhos brilhassem.
Zé que até então sempre andou ao lado de seu amigo dirigiu-se ao treino e foi cheirar os outros cachorros incomodando o recém chegado João da Silva.
- Menino, prenda seu cachorro vira-lata, minhas cachorras não podem correr o risco de adoecer, elas valem muito e são muito sensíveis! – exclamou o treinador, ainda mais incomodado que o garoto.
- Me desculpe. Meu cachorro também é muito valioso, ele já fez espetáculos também, mas o dono do circo de onde viemos queria ficar com ele. Por isso fomos embora – mentiu João.
- O que ele sabe fazer? – perguntou ironicamente o treinador.
- Muitos truques! Zé fique de pé por favor! – dirigiu-se ao cachorro educadamente.
Zé o fez com total equilíbrio e suavidade.
- Pule – ordenou o menino quando o cachorro pulou nos dois pés, e prosseguiu - Vamos jogar bola?
Pegando a bola do treinador e jogando para Zé, que com a ponta do nariz a devolveu em sua mão.
No início era evidente até para uma criança o espanto do treinador que em seguida mudou seu tom de voz e disse:
- Mesmo assim, não quero ver o seu cão perto dos meus animais, meus cachorros são de raça e podem pegar alguma doença – sentindo-se ameaçado pelo menino e seu vira-lata.
- Tudo bem, não quero mais que Zézim trabalhe em circos, desta vez eu vou trabalhar. Trabalharei como ajudante no palco, assim não corro o risco de perder meu único companheiro. – encerrando a conversa e dirigindo-se ao palco onde explicaram seu serviço. Que mesmo sem receber dinheiro algum e não ser aquilo que ele gostaria de fazer ficou muito contente em voltar a viajar e com tantas novidades.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo II
Amizade:
Depois do ocorrido o menino se limpou um pouco e começou a sentir a dor dos cortes do seu corpo ralado e do impacto que sofrera. No inicio teve vontade de chorar, mas em seguida ainda acreditando em reencontrar o caminhão correu um pouco pela estrada.
Percebeu que seria em inútil e assim decidiu andar até a capital onde com o restante do ouro poderia tentar alguma moradia, água e comida.
Chegando na cidade logo as placas o conduziram ao centro, onde leu uma em um antigo e pequeno prédio: Compra-se Ouro. Ali mesmo trocou mais uma capa dentária de ouro por um dinheiro razoável, agora poderia se hospedar alguns dias em uma pensão, comprar roupas para que não percebessem sua origem e principalmente alimentar-se.
Caminhando pela cidade e já longe do centro, encontrou um lugar humilde. Parecia uma casa de família e uma senhora muito simpática sentada em frente a uma placa onde precáriamente podia se ler: Temos Vagas.
Aproximou-se com uma cara muito triste e indagou à senhora:
- Boa tarde dona, a senhora ainda tem vagas? Se o preço for bom posso adiantar em uma semana o pagamento.
- Sim o preço não é caro porque é um lugar simples – respondeu e continuou – mas porque tanta tristeza?
- Dona, é tão difícil falar sobre isso, eu e minha mãe sofremos um acidente na estrada e agora estou sozinho neste mundo!
- Meu deus! Entre você deve estar precisando se alimentar e descansar, depois proseamos isso, vamos entre!
O menino percebeu que não havia muitos quartos, a maior parte sem hospedes, mas que era muito organizado o lugar. Conduzido ao quarto a senhora lhe disse que em pouco tempo sairia o jantar e que ele poderia comer com a família. Ele a agradeceu, ela entregou a chave do quarto e pela primeira vez em sua vida deitou-se em uma cama.
Sua vida toda passou em sua cabeça, tentava imaginar o destino de sua mãe, não sabia como procurá-la e que teria que sobreviver sozinho. Preocupava-se também por não possuir muito ouro, sem ele não teria dinheiro e tudo seria mais difícil. Em meio a um turbilhão de pensamentos o cansaço o fez dormir.
Sem perceber passar o tempo ele acordou com um suave bater na porta:
- O jantar está pronto menino, venha comer conosco!
O garoto nem respondeu, levantou-se rapidamente e abriu a porta do jeito que estava:
- Tranque sua porta garoto, não lhe dei uma chave? Depois se sumir alguma coisa você irá reclamar comigo.
- Sim senhora, desculpe. – se retratou meio sem jeito e emendou - mas quer dizer que posso mesmo jantar com sua família?
- Se passar uma água neste rosto e lavar as mãos, claro! – disse dando risada a boa senhora.
Sem esperar nem um estante o fez. Agora que sabia para que servia aquele objeto metálico trancou seu quarto. Foi aos fundos da casa seguindo um delicioso cheiro de comida caseira.
O fogão a lenha estava ainda funcionando e ela o serviu, se serviu e chamou por Quica para que viesse comer.
O garoto notou o movimento e percebeu que havia uma cadela preta, com um lenço no pescoço, amamentando meia dúzia de cachorrinhos coloridos e um preto. O único que não mamava de tão farto. A cachorra se levantou, dirigiu-se a mesa e recebeu em um prato fundo o mesmo alimento de aroma irresistível. Mas o que lhe causou estranhamento foi o prato colocado a mesa e que a cachorra se sentou na cadeira como uma pessoa.
Os três sentados começaram a comer, a senhora e a cachorra comiam lentamente, enquanto ele, afoito, mostrava-se faminto.
- Esta cachorra é muito inteligente, entende tudo que falamos e comporta-se como uma pessoa – afirmou a mulher – ela que desenterrou no quintal os legumes que usei nesse prato e me trouxe sem nenhum arranhão ou sujeira.
- Nossa! Já tinha ouvido falar sobre a inteligência dos cães, mas nunca pensei que chegasse a tanto! – Afirmou sem acreditar no que via e ao mesmo tempo entusiasmado com aquilo.
- Sim e ela deu cria. Não sei o que fazer com tantos filhotes.
Ao acabar a frase o garoto já limpava o prato, a cachorra parecia perceber que falavam dela e de sua cria. Quando o menino levantou e dirigiu-se aos seus filhotes ela parou sua refeição e o acompanhou.
Ele percebera que só havia um cachorrinho de cor preta como a mãe, que era um pouco mais ativo. O único que estava de olhos abertos. Passou a mão na cabeça dele quando Quica lhe lambeu a mão. Em seguida pegou o animal no colo e disse para a senhora:
- Deixe-me ficar com um, por favor, eu não tenho mais ninguém nesse mundo e ele me fará companhia! – esboçando um sorriso, coisa que não fazia desde ter sido expulso do seu acampamento.
- Claro, mas com duas condições – e mudou o tom de voz – que você me diga seu nome e prometa cuidar muito bem dele.
Como um relâmpago inventou e respondeu de prontidão:
– João da Silva – e explicou – eu adoro animais, sacrificaria minha refeição para não ver um cachorro meu com fome! Ele será meu melhor amigo!
- Você pode me chamar de Dona´Ana. E trate de dar um nome a ele!
- José, vou chama-lo de Zé e assim como a Quica será tratado da mesma maneira! Mas antes de deitar, posso comer mais um pouco, sua comida tem um tempero muito bom e eu adoro arroz com feijão!
- Pode sim – e gentilmente disse - e depois vá dormir porque você está todo machucado, está cansado e precisa se recuperar.
Ele pegou seu prato, Quica voltou a sua cadeira e novamente estavam os três sentados, o garoto e a senhora falando sobre a inteligência da cadela. Quica estava orgulhosa ou algo semelhante a isso enquanto se alimentava sem sujar ou deixar cair um grão de arroz na mesa.
Terminada a refeição ele agradeceu, deu o dinheiro que havia prometido e finalmente dormiu em um sono tão pesado que em um piscar de olhos já era dia, hora de levantar.
Ao abrir a porta para ir ao banheiro estava lá, Zé na porta do seu quarto.