Capitulo IV
A Fera:
Alguns dias se passaram e ele havia se enturmado com o pessoal do circo. Estavam viajando há muito tempo e sabiam que o destino estava próximo. Em meio à conversa um dos palhaços, muito animado, disse:
- O Senhor Salgado falou que posso acrescentar algo em meu show, nestas cidades menores temos mais espaço para por em prática nossas próprias idéias.
- Verdade? Que legal, vai ficar ainda melhor sua aparição! Tenho certeza disso! – respondeu o garoto sem imaginar o que estava para acontecer.
O pessoal da divulgação já estava esperando Carlos Salgado e os artistas, em um terreno amplo com o chão de terra batida. Finalmente haviam chegado, começaram a montar as tendas e tudo que era necessário. Primeiro tiraram as lonas, as desdobraram e as armaram. A seguir as estruturas do palco e arquibancada começavam a ser montadas.
De repente um grito de socorro interrompeu os trabalhos! Rugidos eram normais, mas seguidos por um pedido de socorro era algo incomum para o grupo.
Todos deixaram seus afazeres e se dirigiram a gaiola do leão que estava fora de controle, quem sabe pelos maus tratos ou pela viagem e confinamento.
A fera batia agressivamente suas garras repetidamente na porta de grades.
- O cadeado não vai agüentar!!! Tragam correntes e tragam carne rápido!!! – Desesperava-se o domador, o mesmo que adestrava os três cães.
O primeiro a chegar com as correntes foi o próprio Sr. Carlos Salgado que perguntava:
- Onde está o tranqüilizante! Rápido, tragam a munição - Enquanto o homem bala destemido, porém receoso, rapidamente rodeava com uma corrente bem longa varias vezes a jaula tentando de alguma forma ajudar.
- Onde ficam guardados os cartuchos? - perguntou um acrobata.
Os cachorros do adestrador estavam presos por coleiras no pé de um banco e latiam, irritando mais o leão que aumentava a violência de seus golpes, apavorando cada vez mais todos os presentes.
José observava sentado, sem nenhuma reação. João voltou com a carne enquanto um acrobata colocou sonífero nela.
- Vamos jogue lá dentro! – apressou o palhaço.
O acrobata jogou em vão, o leão não deu atenção ao objeto e num golpe estourou o cadeado mesmo com as correntes presas ao redor que também não suportaram tamanho tranco.
Com o impacto da porta arremessada o domador que tentava afastar o leão da porta com uma vara foi lançado longe e o animal pulou em cima das três cadelas que num piscar de olhos ganiam em meio ao sangue.
Zé então, veloz dirigiu-se por trás do animal que estava estraçalhando os cães. O dono do circo estava logo ao lado em pânico e paralisado.
João tentou impedir gritando pelo nome de seu único amigo, mas o cachorro abocanhou o tornozelo da fera e recuou em um instante. O leão voltou-se para Zézim e preparou seu ataque mortal. Sem sucesso, não podia mais atacá-lo, seu tornozelo estava comprometido e mancando o animal teve dificuldade para se mover.
O homem bala então chegou com o tranquilizante e agora munido Carlos Salgado deu dois tiros de espingarda em Leo que adormeceu.
O Sr. Carlos não acreditava estar vivo. Ainda mais salvo pelo cão de um jovem ajudante. João abraçou seu melhor amigo que foi muito elogiado e enaltecido por todos, principalmente pelo dono do circo que sentia ter nascido novamente:
- Seu cão é muito valente e muito inteligente rapaz! Se todos não estivessem presentes jamais acreditariam que um cachorro venceu Leo o leão! – exclamou.
- Por isso não conto o que ele é capaz de fazer senhor, não acreditariam em mim mesmo. – respondeu Joãozinho.
Foi quando o Senhor Salgado começou a voltar ao seu estado normal. Friamente verificou que teria que sacrificar Leo, que estava irreversivelmente machucado e que não tinha mais cachorros para o espetáculo daquela noite.
Para solucionar um dos problemas e agradecer o menino e o cão, o Senhor Carlos disse:
- Quero ver hoje você e seu cão agradarem todos os pagantes desta noite!
- Nós? Mas nós precisamos nos preparar! – disse o garoto.
- Mas você não me disse que seu cão era adestrado e que já tinha experiência? – interferiu o adestrador de cães cabisbaixo e ao mesmo tempo com muita raiva em meio aos seus três cachorros mortos.
- Não, ele não é adestrado, ele entende as coisas que digo, é muito diferente! – explicou o menino.
- Melhor, se ele entende não dará nada errado! Tomara que as onças façam o publico não darem falta do leão que está em todos os cartazes espalhados pela cidade. – alertou a si mesmo o empreendedor em voz alta que em seguida dirigiu-se novamente ao menino. – Você ainda tem algumas horas para preparar o espetáculo. Os três cães estariam no palco às vinte e duas horas em ponto, esse será o seu horário. – falou seriamente com o menino pedindo para que ele se afastasse para começar seus ensaios, enquanto os outros cuidariam da montagem de tudo.
O menino então pediu emprestado um lenço, um relógio, uma mesa, duas cadeiras, uma panela, dois pratos, um garfo e uma faca, duas camas e roupa de cama para o Senhor Salgado que, sem tempo para curiosidades, atendeu prontamente João.
Ainda agitado o garoto distanciou-se e começou seu diálogo com Zézim.
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