Capitulo III
Sem destino:
Até que Quica parasse de amamentar ele decidiu ficar na pousada e passava o dia inteiro ensinando de tudo que podia para Zé, que agora algumas vezes ele chamava de Zézim. Mais que truques, ensinava coisas que acreditava ser úteis para eles, como farejar caça no mato, enterrar, desenterrar objetos e devolver a ele muitas coisas que imaginava úteis.
Quica era uma boa mãe, ensinava a Zézim de tudo também. O cachorro sempre surpreendia o menino com seu comportamento superando tudo aquilo que lhe fora ensinado.
Mas passado mais ou menos um mês o leite de Quica secou e já com uma única peça de ouro decidiu deixar a pensão e procurar um lugar nas matas onde pudesse acampar como era hábito de seu povo e passar um tempo. Pensou que não seria difícil viver da caça e da coleta com seu cão mais que inteligente.
Já tinha adiantado quase todo pagamento, arrumou em uma pequena mala que ganhou de Dona´Ana as poucas mudas de roupa que tinha e dirigiu-se a frente da pousada onde a senhora passava os finais de tarde.
- Eu e o Zé estamos indo Dona´Ana, preciso procurar um lugar onde eu possa ganhar a vida. Eu não teria como pagar para ficar para sempre aqui, gostei muito da senhora e desse lar. – despediu-se pagando a pequena quantia que devia.
- Tudo bem filho, – acostumada às despedidas de seus hospedes – mas vê se volte a me visitar, gostei muito de sua companhia, animou bastante minha casa e sempre será bem vindo por aqui.
Ele e seu novo amigo partiram sem rumo, mas o garoto sabia que Zé o ajudaria e que os dois não passariam fome. Na estrada, caminharam muito, o menino a falar e o animal de ouvidos em pé. As florestas que imaginava encontrar não existiam. Via apenas propriedades agrícolas onde era certo que não poderiam acampar.
Ele levou mantimentos para poucos dias de caminhada. Depois de passados quatro dias caminhando percebeu que seu plano dificilmente daria certo. Mas sua infância entre os ciganos ou talvez o otimismo de um menino sonhador tenha o feito prosseguir, mesmo sabendo que se continuasse não teria água e comida para voltar à segurança do lugar de partida.
Foram mais três dias andando ao lado de José, quando avistou uma enorme propaganda à beira da estrada “Circo Itinerante de Carlos Salgado”, informando estar a dois quilometros de distância daquele ponto.
Animou-se e se despreocupou. A comida não daria para nem mais um dia de caminhada e em um circo talvez o deixassem acampar e possivelmente em troca de comida conseguiria algum serviço como ajudante.
Enfim estava diante do circo e suas sete tendas. A maior delas lhe encantou (lembrou seu acampamento natal e sua grandiosidade encantava-o por sua imponência), depois observou um senhor organizando com a ajuda de outras pessoas, treilers e objetos circenses, enquanto outras pessoas exercitavam seus números. Ao perceber que aquele senhor comandava os trabalhos aproximou-se, coçou a cabeça e timidamente disse:
- Por favor, aqui que estão precisando de um ajudante? Sou muito trabalhador e me contento com muito pouco.
- Que bom que você chegou filho – animou-se o velho com o sorriso escondido por seu grande bigode. - Já faz bastante tempo que eu anunciei, você teve sorte, hoje é nosso último espetáculo na capital, amanhã estaremos partindo para outra cidade.
- Eu me contento em aprender, que tratem bem meu companheiro Zézim e com comida para me dar força para trabalhar. – esforçou-se o menino para ser aceito. Em seguida apresentando-se como João, nome que adotou ao conhecer Zézim.
- Ótimo, era de alguém como você que estamos precisando, quero um ajudante para montar o palco e algumas outras funções, entre e diga que você é o novo ajudante que lá dentro uma moça com barbas irá explicar seu serviço e nossas regras rapaz.
-Sim senhor! – e imediatamente adentrou na tenda principal.
Ao entrar o que primeiro chamou sua atenção foram os elefantes, as onças o leão e outros animais que nunca tinha visto, mas em um segundo momento os cachorros, vestidos com roupas e sendo treinados por um profissional fez com que seus olhos brilhassem.
Zé que até então sempre andou ao lado de seu amigo dirigiu-se ao treino e foi cheirar os outros cachorros incomodando o recém chegado João da Silva.
- Menino, prenda seu cachorro vira-lata, minhas cachorras não podem correr o risco de adoecer, elas valem muito e são muito sensíveis! – exclamou o treinador, ainda mais incomodado que o garoto.
- Me desculpe. Meu cachorro também é muito valioso, ele já fez espetáculos também, mas o dono do circo de onde viemos queria ficar com ele. Por isso fomos embora – mentiu João.
- O que ele sabe fazer? – perguntou ironicamente o treinador.
- Muitos truques! Zé fique de pé por favor! – dirigiu-se ao cachorro educadamente.
Zé o fez com total equilíbrio e suavidade.
- Pule – ordenou o menino quando o cachorro pulou nos dois pés, e prosseguiu - Vamos jogar bola?
Pegando a bola do treinador e jogando para Zé, que com a ponta do nariz a devolveu em sua mão.
No início era evidente até para uma criança o espanto do treinador que em seguida mudou seu tom de voz e disse:
- Mesmo assim, não quero ver o seu cão perto dos meus animais, meus cachorros são de raça e podem pegar alguma doença – sentindo-se ameaçado pelo menino e seu vira-lata.
- Tudo bem, não quero mais que Zézim trabalhe em circos, desta vez eu vou trabalhar. Trabalharei como ajudante no palco, assim não corro o risco de perder meu único companheiro. – encerrando a conversa e dirigindo-se ao palco onde explicaram seu serviço. Que mesmo sem receber dinheiro algum e não ser aquilo que ele gostaria de fazer ficou muito contente em voltar a viajar e com tantas novidades.
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