segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo II
Amizade:
Depois do ocorrido o menino se limpou um pouco e começou a sentir a dor dos cortes do seu corpo ralado e do impacto que sofrera. No inicio teve vontade de chorar, mas em seguida ainda acreditando em reencontrar o caminhão correu um pouco pela estrada.
Percebeu que seria em inútil e assim decidiu andar até a capital onde com o restante do ouro poderia tentar alguma moradia, água e comida.
Chegando na cidade logo as placas o conduziram ao centro, onde leu uma em um antigo e pequeno prédio: Compra-se Ouro. Ali mesmo trocou mais uma capa dentária de ouro por um dinheiro razoável, agora poderia se hospedar alguns dias em uma pensão, comprar roupas para que não percebessem sua origem e principalmente alimentar-se.
Caminhando pela cidade e já longe do centro, encontrou um lugar humilde. Parecia uma casa de família e uma senhora muito simpática sentada em frente a uma placa onde precáriamente podia se ler: Temos Vagas.
Aproximou-se com uma cara muito triste e indagou à senhora:
- Boa tarde dona, a senhora ainda tem vagas? Se o preço for bom posso adiantar em uma semana o pagamento.
- Sim o preço não é caro porque é um lugar simples – respondeu e continuou – mas porque tanta tristeza?
- Dona, é tão difícil falar sobre isso, eu e minha mãe sofremos um acidente na estrada e agora estou sozinho neste mundo!
- Meu deus! Entre você deve estar precisando se alimentar e descansar, depois proseamos isso, vamos entre!
O menino percebeu que não havia muitos quartos, a maior parte sem hospedes, mas que era muito organizado o lugar. Conduzido ao quarto a senhora lhe disse que em pouco tempo sairia o jantar e que ele poderia comer com a família. Ele a agradeceu, ela entregou a chave do quarto e pela primeira vez em sua vida deitou-se em uma cama.
Sua vida toda passou em sua cabeça, tentava imaginar o destino de sua mãe, não sabia como procurá-la e que teria que sobreviver sozinho. Preocupava-se também por não possuir muito ouro, sem ele não teria dinheiro e tudo seria mais difícil. Em meio a um turbilhão de pensamentos o cansaço o fez dormir.
Sem perceber passar o tempo ele acordou com um suave bater na porta:
- O jantar está pronto menino, venha comer conosco!
O garoto nem respondeu, levantou-se rapidamente e abriu a porta do jeito que estava:
- Tranque sua porta garoto, não lhe dei uma chave? Depois se sumir alguma coisa você irá reclamar comigo.
- Sim senhora, desculpe. – se retratou meio sem jeito e emendou - mas quer dizer que posso mesmo jantar com sua família?
- Se passar uma água neste rosto e lavar as mãos, claro! – disse dando risada a boa senhora.
Sem esperar nem um estante o fez. Agora que sabia para que servia aquele objeto metálico trancou seu quarto. Foi aos fundos da casa seguindo um delicioso cheiro de comida caseira.
O fogão a lenha estava ainda funcionando e ela o serviu, se serviu e chamou por Quica para que viesse comer.
O garoto notou o movimento e percebeu que havia uma cadela preta, com um lenço no pescoço, amamentando meia dúzia de cachorrinhos coloridos e um preto. O único que não mamava de tão farto. A cachorra se levantou, dirigiu-se a mesa e recebeu em um prato fundo o mesmo alimento de aroma irresistível. Mas o que lhe causou estranhamento foi o prato colocado a mesa e que a cachorra se sentou na cadeira como uma pessoa.
Os três sentados começaram a comer, a senhora e a cachorra comiam lentamente, enquanto ele, afoito, mostrava-se faminto.
- Esta cachorra é muito inteligente, entende tudo que falamos e comporta-se como uma pessoa – afirmou a mulher – ela que desenterrou no quintal os legumes que usei nesse prato e me trouxe sem nenhum arranhão ou sujeira.
- Nossa! Já tinha ouvido falar sobre a inteligência dos cães, mas nunca pensei que chegasse a tanto! – Afirmou sem acreditar no que via e ao mesmo tempo entusiasmado com aquilo.
- Sim e ela deu cria. Não sei o que fazer com tantos filhotes.
Ao acabar a frase o garoto já limpava o prato, a cachorra parecia perceber que falavam dela e de sua cria. Quando o menino levantou e dirigiu-se aos seus filhotes ela parou sua refeição e o acompanhou.
Ele percebera que só havia um cachorrinho de cor preta como a mãe, que era um pouco mais ativo. O único que estava de olhos abertos. Passou a mão na cabeça dele quando Quica lhe lambeu a mão. Em seguida pegou o animal no colo e disse para a senhora:
- Deixe-me ficar com um, por favor, eu não tenho mais ninguém nesse mundo e ele me fará companhia! – esboçando um sorriso, coisa que não fazia desde ter sido expulso do seu acampamento.
- Claro, mas com duas condições – e mudou o tom de voz – que você me diga seu nome e prometa cuidar muito bem dele.
Como um relâmpago inventou e respondeu de prontidão:
– João da Silva – e explicou – eu adoro animais, sacrificaria minha refeição para não ver um cachorro meu com fome! Ele será meu melhor amigo!
- Você pode me chamar de Dona´Ana. E trate de dar um nome a ele!
- José, vou chama-lo de Zé e assim como a Quica será tratado da mesma maneira! Mas antes de deitar, posso comer mais um pouco, sua comida tem um tempero muito bom e eu adoro arroz com feijão!
- Pode sim – e gentilmente disse - e depois vá dormir porque você está todo machucado, está cansado e precisa se recuperar.
Ele pegou seu prato, Quica voltou a sua cadeira e novamente estavam os três sentados, o garoto e a senhora falando sobre a inteligência da cadela. Quica estava orgulhosa ou algo semelhante a isso enquanto se alimentava sem sujar ou deixar cair um grão de arroz na mesa.
Terminada a refeição ele agradeceu, deu o dinheiro que havia prometido e finalmente dormiu em um sono tão pesado que em um piscar de olhos já era dia, hora de levantar.
Ao abrir a porta para ir ao banheiro estava lá, Zé na porta do seu quarto.

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