sábado, 13 de fevereiro de 2010

João e José da Silva

Capitulo VI
A estréia:
O dia passou rápido para a dupla que ensaiou incontáveis vezes. Agora faltava pouco para as dez horas da noite. O garoto só tinha um receio, de seu amigo reagir de forma inesperada diante às luzes, ao barulho e ao grande público. Mas acreditava no potencial de Zézim e isso diminuía ligeiramente o calafrio que sentia no exato momento que o Sr. Salgado anunciou:
- Respeitável público, em instantes a prova de que o cachorro é mais que o melhor amigo do homem! Esta atração é diferente de tudo que já viram. Não se trata de um cão adestrado, mas de um menino e seu companheiro que compreende tudo o que seu dono diz! E mais, ele também fala com o dono que o entende por completo! Com vocês João e seu melhor amigo Zézim!
Então luzes miraram a dupla que nada podia ver enquanto conduzidos ao palco. O cão parecia notar o nervosismo de seu [dono] e não saiu do seu lado para protegê-lo do que pudesse acontecer. Quando os holofotes se apagaram ambos puderam ver a mesa montada e as arquibancadas cheias de espectadores por todos os lados.
Foi então que o menino pegou o microfone, engoliu seco e cumprimentou o público:
- Boa noite a todos! – olhou seu amigo e disse – Zézim, por favor, que horas são?
E como combinado, sem sua maquiagem, estava na platéia o palhaço, com o mesmo relógio dos ensaios, na primeira fileira e misturado ao público.
Transmitindo sua tranqüilidade ao garoto ele dirigiu-se ao palhaço acompanhado por um microfone sustentado por um pedestal e um cabo, amplificando seus dez latidos exatamente às dez horas da noite.
E o menino deu a mesma sequencia ensaiada dizendo:
- Já? Dez horas! Passou a hora do jantar!
Quando todos se espantaram em um único coro:
- Ó!!! – como se o cachorro soubesse realmente ver um relógio.
Joãozinho continuou seu número até o fim, quando ambos agradeceram o público. Surpresos e perplexos com a sintonia entre os dois e o comportamento do cão, percebido por todos como um comportamento humano por parte do animal. Aplaudiram de pé e ovacionaram os dois. Aos poucos as palmas foram cessando prevalecendo o silêncio absoluto. Tudo tinha ocorrido como o planejado, até que:
- Se este cão não é adestrado mesmo e entende tudo o que você fala, diga para ele vir pegar essa laranja que tenho em minhas mãos!!! – gritou em tom de desafio o conhecido adestrador de animais do alto da arquibancada.
- Tudo bem! - disse o menino ao invejoso colega de trabalho, dirigiu-se à Zézim e indagou ao microfone – Zé, eu ainda estou com fome. - o cachorro o olhou atentamente, quando ele falou por fim com ênfase na palavra laranja – queria uma laranja, busca pra mim?
Mal terminou de falar “busca pra mim” e o cachorro com seu faro se dirigiu de forma ágil ao adestrador que os desafiaram. Pegou delicadamente com a boca o fruto e deu educadamente ao menino que permaneceu no centro do palco e agradeceu seu canino companheiro com um afago, enquanto erguia com a outra mão o fruto.
Novamente todos se levantaram. As palmas, assovios e gritos não paravam mais. Mesmo depois de agradecerem novamente e se retirarem do palco. Nem mesmo o Sr. Salgado disfarçou sua empolgação
Neste momento o antigo adestrador de animais estava certo que este seria seu último dia no circo.
João da Silva pela primeira vez sentiu-se realmente feliz desde que banido de sua família por todo o acampamento cigano. João estava animado, não com o dinheiro que ganharia a partir daquele momento. Sua felicidade vinha do fato de que sua vida seria na estrada como ele sempre sonhou e ainda melhor em um ambiente repleto de arte e cuidando de animais que nunca imaginou existir. Assim João voltou a sorrir e José muito sensível, compreendia sua participação nisso.

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